Estou escrevendo para você do Brasil, sobre jumentos e outras paixões

2023-12-31T03:00:00Z

Já em 1950, Gilles Lapouge estava cruzando a América do Sul, contraindo uma paixão pelo Brasil que nunca o abandonaria. Ele continuou a escrever uma coluna diária para O Estado de São Paulo. Mas, para ele, a jornada definitiva sempre seria a literatura.

« Estou escrevendo para você do Brasil** », este livro, composto de seus papéis encontrados por seus filhos, publicado por Albin Michel em novembro de 2023, é uma seleção de milhares de artigos; ele segue as principais paixões de Gilles Lapouge.

O livro está dividido em três partes:

I. Figuras e personagens

  • Esta seção explora diferentes figuras literárias, tanto clássicas quanto românticas, bem como personalidades influentes. Começa com escritores clássicos, como Montaigne, Thomas More e La Fontaine, e depois passa para os românticos, como Stendhal, Balzac e Baudelaire. A seção também abrange escritores sul-americanos, como Borges e Amado, além de « videntes » como Knut Hamsun e James Joyce. Também inclui figuras políticas e intelectuais como Charles de Gaulle, George Orwell, Ernst Jünger e Albert Camus.

II. Terras e aventuras

  • Esta seção parece explorar assuntos relacionados a viagens e aventuras. Abrange temas variados como o Barba Negra, rotas de café, o resgate de Veneza, mudanças climáticas (ondas de calor e neve) e notícias da Amazônia.

III. A emergência ecológica

  • A última seção aborda questões ecológicas contemporâneas. Ela trata de assuntos como notícias ocultas, a preferência de pássaros e abelhas pela cidade, ameaças às abelhas e a outros insetos, a sobrevivência de lobos, linces e ursos, as consequências do aquecimento global e da migração, o declínio de pássaros na Europa, a morte de animais, a situação dos orangotangos, o desaparecimento de insetos e a perspectiva de Brigitte Bardot sobre os jumentos.

Uma seleção muito eclética, como você pode ver

Escolhi falar com vocês sobre o capítulo intitulado « Brigitte Bardot e os jumentos » porque ele trata especificamente dos jumentos brasileiros:

O texto evoca a relação entre Brigitte Bardot e os jumentos, destacando o tratamento injusto reservado a esses animais. Enquanto a imprensa se debruça sobre assuntos como o Festival de Cinema de Cannes e o aquecimento global, os jumentos são frequentemente ignorados. Em comparação com os cavalos, que são considerados elegantes e distintos, os jumentos recebem termos ofensivos em francês, como « bourricot » ou « baudet ».

O autor expressa sua indignação com o plano do Rio Grande do Norte de exportar trezentos mil jumentos por ano para a China para as indústrias de alimentos e cosméticos. Ele ressalta o importante papel que os jumentos têm desempenhado ao longo da história, ajudando a construir pirâmides, fazendo trabalhos agrícolas e até mesmo contribuindo para a vida cotidiana nas aldeias.

O jumento, apesar de suas inferioridades anatômicas, tem sido um companheiro fiel do homem, contribuindo para uma variedade de tarefas. No entanto, com o advento da tecnologia, especialmente motores e veículos motorizados, o burro se tornou obsoleto e agora é vendido para consumo na China.

O autor relembra suas memórias pessoais dos jumentos na região Nordeste do Brasil, lamentando seu declínio e sua substituição por motocicletas barulhentas. Ele destaca a nobreza e a sensibilidade desses animais, relembrando momentos de sua infância em que compartilhava momentos de paz com eles. Um tema que ecoa no folclore nordestino com Luiz Gonzaga:

O texto também explora o lugar simbólico do jumento em várias culturas religiosas, desde a Bíblia até o reconhecimento do jumento pelos místicos cristãos no Egito. Apesar dos insultos e do desprezo a que os jumentos foram submetidos ao longo da história, alguns intelectuais e poetas, como Victor Hugo e Francis Jammes, expressaram sua admiração por esses animais.

O texto celebra a nobreza e a sabedoria do jumento, destacando sua contribuição para a história da humanidade, apesar do tratamento injusto e muitas vezes cruel que sofreu. O autor nos convida a reconhecer o valor desses animais e a refletir sobre a maneira como eles foram relegados a segundo plano ao longo do tempo.

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